Caros seres audiovisuais do planeta,
Estamos no Recôncavo da Guanabara e temos, mais uma vez, um recado urgente e necessário pra mandar:
A BAIXADA FILMA 2 – Segundo Manifesto!
No dia 8 de março de 2018, o Baixada Filma aterrissou em uma sessão lotada no cinema Odeon. Naquele dia, nós, um grupo diverso de realizadores baixadenses levantamos a bandeira que reivindicava a territorialização dos recursos e das políticas públicas para o cinema e audiovisual.
A Baixada Fluminense é um território composto por 13 municípios, que movimenta uma das maiores economias do estado do Rio de Janeiro, concentra cerca de 4 milhões de habitantes e reúne alguns dos maiores PIBs municipais, arrecadando bilhões em impostos anualmente. Ainda assim, segue recebendo investimentos culturais profundamente desproporcionais. Dados da transparência ativa da Ancine (2008-2022) revelam que 99,8% dos recursos do FSA no estado do Rio ficaram retidos na capital. Territorializar é também perguntar: de onde vêm os recursos públicos e para onde eles voltam? Em 15 anos de fundo, apenas 8 municípios fluminenses tiveram projetos contemplados; o único da Baixada é Nova Iguaçu, com irrisórios 0,11% do total estadual. Duque de Caxias, que é uma das quatro maiores economias do Estado, sequer aparece.
A descentralização no cinema brasileiro é uma dívida histórica. Nos anos 1980, o território baixadense abrigou a TV Olho, primeira TV de rua do Brasil e manteve por 16 anos a TV Maxambomba, referência nacional de TV comunitária. A rede cineclubista da Baixada se consolida de forma contínua desde o início dos anos 2000, com coletivos como Mate com Angu (2002) e Buraco do Getúlio (2006), que criaram singulares perspectivas, narrativas e modos de fazer cinema.
Nosso cinema é mutirão!
A partir da experiência das Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, o arranjo produtivo da região pode experimentar uma estrutura inédita de desenvolvimento e produção. A política pública, quando formulada a partir dos modos de produção locais, aumenta seu impacto, sua capilaridade e sua diversidade. Os modos artesanais e independentes de fazer cinema movimentam redes produtivas, formam profissionais, inventam tecnologias e criam outras formas de produção e circulação. Assim, queremos a diversificação dos modos de financiamento, para que os recursos públicos sejam capazes de alcançar a diversidade real do cinema brasileiro.
O Cinema Baixadense é Cinema Brasileiro!
Seguimos em disputa.
Regionalizar o recurso não basta.
O Estado do Rio de Janeiro recebe os fomentos, só que eles param na capital. O Rio é mais que a capital! É preciso territorializar!
E quando dizemos territorializar, não estamos falando apenas da Baixada Fluminense. Estamos propondo que haja uma redistribuição histórica de recursos para além do Centro e da Zona Sul do Rio de Janeiro. Queremos investimento na Baixada, mas também nas favelas, nos subúrbios, nas periferias e no interior do estado, territórios que igualmente produzem cinema, conhecimento, trabalho e cultura e seguem fora dos principais circuitos de financiamento.
Territorializar não é trocar um centro por outro. É fazer o recurso circular.
Belford Roxo é uma das cidades mais populosas do estado do Rio de Janeiro e não existe nenhuma sala de cinema. Em 2025, Nilópolis perdeu sua única sala de cinema ativa. Por outro lado, segundo o Anuário da ANCINE de 2022, uma das maiores taxas de ocupação de salas de cinema do país é a do Caxias Shopping, ou seja, a Baixada tem público e deseja ver cinema brasileiro nas telonas!
Assim, queremos a aplicação da Lei nº 13.006/2014 de Educação Audiovisual nas Escolas Públicas na Baixada Fluminense para que sejam fortalecidos os arranjos diversos de exibição, como cineclubes e espaços independentes, onde podemos estruturar a formação de público regional.
Em 2022, criamos a Tela BXD, uma janela de streaming local, disponibilizando mais de 200 obras audiovisuais baixadenses como uma forma de deságue para a produção local.
Fruto da articulação deste coletivo que vos fala com as professoras da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF/UERJ), contribuímos para a criação do segundo curso de licenciatura em Cinema e Audiovisual do país, localizado na Vila São Luís, em Duque de Caxias.
Portanto, caros seres audiovisuais que movem as telas deste planeta, nós compomos uma parcela expressiva e qualificada da força de trabalho do setor no estado do Rio de Janeiro. Reivindicamos o direito de produzir, capacitar, consolidar nossas produtoras e descentralizar o desenvolvimento econômico, fortalecendo o território. Nossa meta é clara: queremos filmar, formar, estruturar nossas próprias produtoras e fazer a economia girar dentro do nosso território. Chega de depender de estruturas hegemônicas, centralizadoras, que mantêm sobre nós, um olhar eternamente excludente. A nossa estética e a nossa força de trabalho pertencem ao lugar que a gente constrói todos os dias.
Queremos dispor de um diagnóstico na Baixada Fluminense, com a publicação de dados qualitativos e quantitativos que possam contribuir para a construção de políticas públicas qualificadas e que contemplem outros arranjos de produção cinematográfica e audiovisual.
Aos gestores públicos municipais, estaduais e federais, o papo é reto: a Baixada Fluminense não pode continuar sendo tratada como território de potência reconhecida apenas no discurso e negligenciada na distribuição dos recursos. É preciso transformar a diretriz em orçamento, meta em edital, diagnóstico em política continuada e escuta territorial em decisão pública.
A Baixada Fluminense é história viva de criação cinematográfica e audiovisual, de inovação estética e de memória social. A consolidação do audiovisual baixadense exige compromisso institucional, critérios territoriais obrigatórios, transparência nos dados, investimento permanente em formação, produção, preservação e difusão, além da presença efetiva da Baixada nos planos, fundos e programas do cinema brasileiro, que nos garanta soberania narrativa.
Cabe ao poder público garantir as condições materiais para que essa força deixe de sobreviver à margem e passe a ocupar o lugar que já construiu.
A Baixada filma, a Baixada forma e a Baixada exibe.
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Movimento Baixada Filma, setembro de 2026

